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POR: Colaborador

Nos últimos anos surgiram aplicações de assistentes virtuais e personalizações diversas.

O varejo atravessou a fase de descoberta da inteligência artificial. Nos últimos anos surgiram aplicações de assistentes virtuais e personalizações diversas. Contudo, o mercado está atingindo um ponto de inflexão.

O recém-publicado relatório The State of AI 2025 da McKinsey revela um paradoxo no mercado global: enquanto 88% das organizações afirmam usar IA em alguma função, a execução real está travada: cerca de 65% destas empresas ainda não conseguiu escalar a tecnologia para além de experimentos isolados ou pilotos departamentais.

Este cenário se observa também no varejo brasileiro. Pesquisas da CNDL/SPC Brasil mostram que, embora o conhecimento sobre IA seja alto (87%), apenas 14% dos empresários fazem uso efetivo da tecnologia.

A vantagem competitiva deixa de estar no uso da tecnologia e passa para a escala. Isto significa uma mudança de soluções pontuais replicadas em várias lojas ou setores, para implementação de sistemas autônomos e coordenados em toda a arquitetura de negócios.

Enquanto pilotos isolados validam hipóteses e geram ganhos incrementais, a IA em escala, utilizada em sua maior potência, gera transformação da organização e impacto financeiro em grandes proporções.

O multiplicador de ROI: Inteligência artificial operada em escala

Companhias que adotaram o uso da inteligência artificial em escala comprovam que o ROI (retorno de investimento) não é mais uma promessa, é uma realidade baseada em dois pilares:

1. Orquestração sistêmica: eficiência operacional
Quando a IA opera transversalmente, um sinal de demanda detectado no e-commerce ajusta automaticamente a reposição no centro de distribuição e ajusta o preço na loja em tempo real. A inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta de suporte para ser o motor da operação.

O Mercado Livre tem a capacidade de realizar mais da metade de suas entregas em até 24 horas (em suas praças principais). Isto não é apenas um feito de infraestrutura física, mas de inteligência de dados em escala.

2. Maturidade omnichannel: proatividade e receita
A IA em escala é o que viabiliza a verdadeira maturidade omnichannel. Ela permite um engajamento proativo e interações altamente personalizadas que se mantêm consistentes independentemente do canal utilizado. Não se trata apenas de estar presente em vários canais, mas de garantir que o cliente seja reconhecido e suas necessidades antecipadas com a mesma inteligência, seja em uma interação via aplicativo ou no ponto de venda físico.

A McKinsey estima que varejistas que utilizam IA para essa personalização profunda da jornada veem um aumento de receita de 10% a 15%. Além disso, a eficiência de marketing salta até 30%, pois deixa-se de gastar mídia com quem não tem interesse na compra e o foco é direcionado para uma conversão precisa.

O desafio de operar em escala

Se o retorno está comprovado, por que poucos escalam? Google Cloud alerta que 60% dos varejistas ainda lutam com dados fragmentados. O ERP não conversa com o CRM, que não conversa com o e-commerce em tempo real.
Escala demanda organização:
1. Higiene dos dados: Implementações pilotos aceitam planilhas limpas manualmente. A escala exige pipelines automatizadas e governança robusta. Se os dados de estoque do ERP não batem com o físico, a IA apenas escalará o erro, gerando decisões equivocadas em massa. A higienização de dados deixa de ser tarefa de TI e vira prioridade de negócio.
2. Infraestrutura moderna: Sem uma arquitetura que permita o fluxo de dados em tempo real, a IA mais avançada do mundo ainda não gera resultados. Ela precisa de informação fluida para aprender e agir.

Conclusão

A era dos pilotos isolados está chegando ao fim e a inteligência artificial no varejo deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar um requisito de permanência.
A escala coloca o negócio em um patamar de eficiência com velocidade que humanos e sistemas comuns não alcançam:

  • Entregas rápidas (em até 24 horas) realizadas com custos operacionais inferiores aos dos sistemas tradicionais,
  • Hiper personalização simultânea, permitindo tratar milhões de clientes como indivíduos únicos ao mesmo tempo,
  • Estoque otimizado em rede, evitando desperdícios e rupturas em centenas de lojas de forma orquestrada.

Adotar a IA em escala não é mais uma aposta tecnológica, mas uma decisão de sobrevivência. O risco, hoje, não está na implementação da tecnologia, mas na permanência em modelos manuais ou fragmentados que não acompanham a velocidade do consumidor e a eficiência dos concorrentes digitalizados

*Amanda do Vale é Lead Product Manager da Thoughtworks

FONTE: Varejo S.A