POR: Alex Akira

O desempenho reflete um ambiente marcado por juros elevados, menor confiança do consumidor e avanço da inadimplência das famílias

Os números consolidados de 2025 confirmam o que os indicadores já vinham antecipando ao longo do ano: o comércio brasileiro desacelerou. Dados divulgados pelo IBGE mostram que o varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, cresceu apenas 0,1% no ano passado, depois de avançar 3,7% em 2024. No varejo restrito, o crescimento foi de 1,6%, também abaixo do ritmo observado no ano anterior.

O desempenho reflete um ambiente marcado por juros elevados, menor confiança do consumidor e avanço da inadimplência das famílias. Ainda assim, o setor mantém relevância estrutural na economia, tanto em geração de empregos quanto em participação no PIB.

Juros altos e crédito mais caro pesaram sobre as vendas

A desaceleração não ocorreu de forma abrupta. Ao longo de 2025, os dados mensais já indicavam perda de ritmo, especialmente nas atividades mais dependentes de financiamento. O ciclo de alta da taxa Selic encareceu o crédito e reduziu o ímpeto de consumo de bens de maior valor.

Além disso, o aumento do endividamento e da inadimplência limitou o espaço das famílias no orçamento, exigindo maior cautela nas decisões de compra. O resultado foi um crescimento praticamente estagnado no varejo ampliado, movimento que interrompe a trajetória mais robusta observada em 2024.

Setor mantém resiliência histórica

Nos últimos dez anos, o comércio enfrentou dois períodos críticos: a recessão de 2015-2016 e a pandemia iniciada em 2020. Em quatro ocasiões houve retração nas vendas do varejo ampliado, sendo 2016 o momento mais desafiador.

Mesmo diante das oscilações conjunturais, o setor mostrou capacidade de adaptação. O comércio segue como um dos principais motores de geração de emprego e renda no país, preservando sua importância estratégica na economia brasileira.

Se o desempenho das vendas desacelerou, o mercado de trabalho trouxe um contraponto positivo. A taxa de desemprego encerrou o quarto trimestre de 2025 em 5,1%, uma das menores já registradas na série histórica recente. A renda média real também cresceu 5% no ano.

Por outro lado, o ritmo de criação de vagas formais perdeu força. Segundo o CAGED, foram abertas 1,28 milhão de vagas com carteira assinada em 2025. O comércio respondeu por 247 mil novos postos, ficando atrás apenas do setor de serviços.

Esse cenário revela um ambiente misto: emprego em nível elevado e renda maior, mas com menor dinamismo na expansão do mercado formal.

Crédito cresce, mas encontra limite no endividamento

O saldo das operações de crédito continuou avançando ao longo de 2025. Contudo, o aumento do comprometimento da renda das famílias impõe restrições à expansão desse mercado. O limite não está apenas na oferta, mas principalmente na capacidade de pagamento.

Para o varejo, isso significa necessidade de maior rigor na concessão e monitoramento do crédito, além de estratégias comerciais mais focadas em liquidez e giro de estoque.

A principal sinalização positiva veio da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária. Em janeiro, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano, mas indicou de forma clara que deve iniciar a redução da taxa na reunião de março.

A eventual queda dos juros representa um ponto de inflexão importante para o comércio. A redução do custo do crédito tende a estimular financiamentos e aliviar o orçamento das famílias, criando condições para retomada mais consistente do varejo ampliado ao longo de 2026.

O que o varejista deve observar agora

  • O crescimento de 2025 foi modesto, mas não configura retração estrutural.
  • O mercado de trabalho segue sustentando renda, ainda que com menor ritmo de criação de vagas.
  • O crédito continua crescendo, porém com limite imposto pelo endividamento.
  • A sinalização de queda da Selic pode marcar o início de um novo ciclo para o consumo.

FONTE: Varejo S.A