FOTO: Envato
POR: Alex Akira
Fim da competição abre espaço para balanço de vendas, estoques e gastos das famílias
Com o fim da Copa do Mundo 2026, o varejo brasileiro entra em uma nova fase: a de medir o saldo deixado pela competição. Depois de semanas de campanhas, vitrines temáticas, promoções, jogos da Seleção Brasileira, eliminação do Brasil e reta final do torneio, lojistas agora avaliam o que funcionou, quais categorias tiveram melhor desempenho, o que sobrou em estoque e como o comportamento do consumidor se confirmou ao longo do Mundial.
Para o comércio, a Copa funcionou como uma data sazonal prolongada. Diferentemente de eventos concentrados em um único dia, o torneio criou várias ocasiões de consumo: convocação, estreia do Brasil, jogos da fase de grupos, mata-mata, eliminação da Seleção, semifinais e final. Cada etapa exigiu uma estratégia diferente de comunicação, estoque e promoção.
De acordo com a pesquisa “Intenção de compras para Copa do Mundo 2026”, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas, 60% dos consumidores pretendiam comprar produtos ou contratar serviços durante o período da competição. A estimativa era de que cerca de 99,2 milhões de brasileiros movimentassem o comércio por causa do Mundial.
O ticket médio previsto para os gastos extras era de R$ 619, chegando a R$ 784 entre consumidores das classes A e B. Com o encerramento da Copa, esses números ajudam o varejo a avaliar a força real do evento no caixa e também servem de alerta para o consumidor observar o impacto dos gastos no orçamento.
Alimentos, bebidas e delivery estiveram no centro da Copa
A pesquisa indicava que os produtos mais desejados para o período eram aqueles ligados ao consumo compartilhado. Bebidas não alcoólicas, como refrigerantes, água, sucos, energéticos e chás, apareciam na liderança, citadas por 68% dos consumidores. Em seguida estavam petiscos, com 62%, vestuário, com 61%, itens para churrasco, com 60%, e cervejas, com 59%.
Essas categorias mostram como a Copa foi consumida não apenas como evento esportivo, mas como ocasião de encontro. Jogos em casa, reuniões com familiares, encontros com amigos, bares, restaurantes e pedidos por delivery ajudaram a impulsionar produtos de conveniência, alimentos e bebidas.
Entre os serviços, o delivery de comida e bebida era o mais pretendido, citado por 61% dos consumidores. Bares e restaurantes apareciam com 39%, enquanto TV por assinatura ou pacotes especiais de esporte eram citados por 33% e streamings por 30%.
Para restaurantes, lanchonetes, pizzarias, hamburguerias, supermercados e lojas de conveniência, a Copa reforçou a importância de combinar presença física, entrega rápida, promoções para grupos e comunicação antecipada. O consumidor buscou conveniência, mas também valorizou preço, experiência e praticidade.
Varejo físico manteve protagonismo
Mesmo com a força do digital e dos aplicativos de entrega, o varejo físico teve papel central na jornada de compra da Copa. Segundo a pesquisa, 89% dos consumidores pretendiam realizar compras em lojas físicas. Os supermercados lideravam como destino de compra, citados por 70%, enquanto lojas de rua e de bairro apareciam com 33%.
Esse comportamento reforça a importância do ponto de venda em datas de alta demanda e consumo imediato. Para supermercados, lojas de bairro, atacarejos e conveniências, o Mundial exigiu organização de estoque, ilhas promocionais, combos, comunicação visual e reposição rápida de produtos de maior giro.
A Copa também mostrou que o consumidor se planeja, mas nem sempre deixa de comprar por impulso. O levantamento apontava que 44% costumavam antecipar compras em até uma semana, seja para aproveitar promoções, evitar filas ou garantir produtos antes dos jogos. Ao mesmo tempo, os jogos da Seleção Brasileira e a reta final do torneio criaram oportunidades para compras de última hora, pedidos por delivery e gastos adicionais.
Eliminação do Brasil mudou o ritmo do consumo
Um dos principais aprendizados para o varejo foi a necessidade de adaptação rápida. Enquanto a Seleção Brasileira estava na competição, o consumo era impulsionado por torcida, expectativa e identificação nacional. Após a eliminação, o apelo mudou.
Produtos diretamente ligados ao Brasil, como camisas, bandeiras, acessórios, uniformes, artigos oficiais e itens verde-amarelos, tenderam a perder força. Já categorias mais neutras, como alimentos, bebidas, delivery e bares esportivos, ainda puderam ser trabalhadas até a final, mas com outra abordagem.
A comunicação precisou trocar o discurso de “jogo da Seleção” por “reta final da Copa”, “últimos jogos do Mundial”, “promoções de fim de evento” e “experiência para assistir à decisão”. Essa mudança mostra que, em eventos esportivos, o desempenho em campo pode alterar rapidamente a estratégia comercial.
Para o varejo, o saldo da Copa não deve ser medido apenas pelo volume de vendas, mas também pela capacidade de reagir aos acontecimentos. Lojistas que ajustaram estoques, mudaram campanhas e reposicionaram produtos tiveram mais chances de reduzir perdas e aproveitar a competição até o fim.
Produtos oficiais e patrocinadores deixam lições
A pesquisa também apontava uma relação importante entre Copa, marcas e produtos licenciados. Entre os consumidores que pretendiam realizar compras para o Mundial, 74% afirmavam que dariam preferência a marcas patrocinadoras da Seleção Brasileira. Desse total, 53% diziam que essa preferência dependia de preços acessíveis, enquanto 21% afirmavam que priorizariam patrocinadores independentemente do valor.
No caso dos produtos da Seleção, 47% pretendiam comprar itens oficiais, motivados principalmente pela percepção de qualidade e durabilidade. Ao mesmo tempo, o preço aparecia como barreira relevante para o mercado licenciado.
Esses dados deixam uma lição importante: a associação com a Seleção Brasileira e com a Copa tem força, mas não elimina a sensibilidade ao preço. O consumidor pode reconhecer valor em marcas oficiais, patrocinadores e produtos licenciados, desde que encontre uma relação clara entre qualidade, desejo e custo.
Para as próximas competições, o desafio do varejo será trabalhar diferentes faixas de preço, melhorar a percepção de valor e evitar depender apenas do apelo emocional da torcida.
Gastos da Copa podem pesar no orçamento
Com o fim do Mundial, o consumidor também precisa olhar para o próprio orçamento. A pesquisa mostrava que parte dos gastos seria bancada com recursos disponíveis, mas também havia sinais de atenção.
Segundo o levantamento, 32% dos consumidores pretendiam usar sobra no orçamento para bancar os gastos extras da Copa, enquanto 28% usariam dinheiro destinado ao lazer. Por outro lado, 27% afirmavam que recorreriam ao limite do cartão de crédito ou cheque especial, e 18% usariam renda extra, como bônus ou comissões.
O Pix era a principal forma de pagamento pretendida, citado por 57% dos consumidores. Além disso, 90% afirmavam que pagariam as compras à vista. Ainda assim, 25% pretendiam usar cartão de crédito parcelado, o que pode levar parte dos gastos da Copa para os meses seguintes.
Outro ponto sensível está no endividamento. A pesquisa apontava que 61% dos consumidores que pretendiam consumir na Copa já possuíam dívidas em atraso. Entre eles, 70% estavam negativados. Esse dado mostra que o consumo em grandes eventos precisa ser planejado com cuidado, especialmente quando envolve lazer, impulso, apostas, delivery, bares e compras recorrentes.
Apostas acendem alerta para o pós-Copa
A Copa também reforçou o alerta sobre apostas esportivas. Segundo a pesquisa, 41% dos consumidores pretendiam apostar em bets durante o Mundial, enquanto 14% participariam de bolões entre amigos.
O dado mais preocupante estava na relação entre apostas e endividamento. O levantamento indicava que 74% dos consumidores enxergavam nas apostas uma forma de pagar dívidas pendentes. Desse total, 31% concordavam totalmente com essa prática, enquanto 43% concordavam parcialmente, tratando a aposta como uma tentativa de “tentar a sorte”.
No pós-Copa, esse comportamento merece atenção. Apostas não devem ser tratadas como estratégia de reorganização financeira. Para consumidores endividados, a busca por ganhos rápidos pode agravar o desequilíbrio no orçamento, especialmente quando há reinvestimento de ganhos, perdas sucessivas ou uso de crédito para apostar.
Copa deixa aprendizados para o varejo
O fim da Copa do Mundo deixa algumas lições importantes para o comércio. A primeira é que eventos esportivos de grande porte podem movimentar diferentes setores ao mesmo tempo: supermercados, bares, restaurantes, delivery, varejo esportivo, lojas de rua, produtos oficiais, serviços de transmissão e meios de pagamento.
A segunda é que planejamento precisa caminhar junto com flexibilidade. O varejo que se preparou para a Copa, mas também conseguiu ajustar campanhas após a eliminação do Brasil, teve mais condições de aproveitar a reta final do torneio e reduzir perdas.
A terceira é que o consumidor busca preço, conveniência e experiência. A emoção da Copa ajuda a vender, mas não substitui boa oferta, disponibilidade de produto, atendimento eficiente e comunicação clara.
Com o encerramento do Mundial, o varejo agora mede resultados e aprende com o comportamento do consumidor. Já para as famílias, o momento é de avaliar os gastos, reorganizar o orçamento e entender o impacto real da Copa depois do apito final.
A competição acabou, mas seus efeitos seguem no caixa das empresas, nos estoques das lojas e nas contas dos consumidores.
FONTE: Varejo S.A
